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"... Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco".
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco".

"Matilde Rosa Araújo, que ontem morreu em Lisboa, aos 89 anos, será lembrada como um nome decisivo da literatura infanto-juvenil portuguesa da segunda metade do século XX, mas essa foi apenas uma das dimensões de uma vida da qual se pode dizer, como de poucas, que foi inteiramente dedicada às crianças. Enquanto escritora, mas também como professora, pedagoga e activista militante de instituições como a Unicef ou Instituto de Apoio à Criança." In Público

Presente
A girafa deu
ao seu
marido
no dia
de Natal
um lenço
colorido
de seda natural.
Que alegria!
– disse o marido –
ponha a pata
nesta pata,
com um pescoço
tão comprido
você não podia
ter-me comprado
uma gravata.
ao seu
marido
no dia
de Natal
um lenço
colorido
de seda natural.
Que alegria!
– disse o marido –
ponha a pata
nesta pata,
com um pescoço
tão comprido
você não podia
ter-me comprado
uma gravata.

SINÉDOQUE
é sempre a pequena parte que ama /ama um todo.
nesse todo é a sua pequena parte
que ama / ama um todo.
dois todos não se amam mutuamente,
excepto com as suas pequenas partes.
contudo, as pequenas partes
amam sem se amarem,
cada uma ama um todo, sem distinguir
quaisquer pequenas partes.
a parte que ama nunca é
expressamente amada.
amar um todo é amar / nada.
Sylvia Beirute
inédito
daqui

que tiro pela cabeça
não contes
Não contes que corro os cortinados
para uma sombra mais espessa
não contes
Deixa que feche o
anel em redor do teu pescoço
com as minhas longas pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu novelo
nem da roca de fiar
não contes
Não contes o que faço com eles
a fim de te ouvir gritar
não contes
Deixa que feche o
anel em redor do teu pescoço
com as minhas longas pernas
e a sombra do meu poço
palavras de Maria Teresa Horta (1937)
O meu país sabe a amoras bravas no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Foto:Kumi Oguro
Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho
Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio
Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo
Não há nada
que disfarse
de ti aquilo que vejo
Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo
E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento
Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas
Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.
Maria Teresa Horta
O meu marido saiu de casa no dia 25 de Janeiro.
Como não tive mais notícias, espero o pior.
Levava uma bicicleta a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde, blusão cinzento, tipo militar,
e calçava botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta e uma pele de ovelha,
um fogão a petróleo e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.
Alexandre O'Neill
in:As horas já de números vestidas(1981)
in:As horas já de números vestidas(1981)

Verdes são os campos,
De cor de limão:Assim são os olhosDo meu coração.
Campo, que te estendesCom verdura bela; Ovelhas, que nela Vosso pasto tendes, De ervas vos mantendes Que traz o Verão, E eu das lembranças Do meu coração.
Gados que pasceis Com contentamento, Vosso mantimento Não no entendereis; Isso que comeis Não são ervas, não: São graças dos olhos Do meu coração.
Luís de Camões
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